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“Tem gente que gosta de pescar. Eu gosto de fotografar ônibus”: conheça o hobby dos busólogos, que reúne milhares de fãs no Brasil

30 de junho de 2026
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“Tem gente que gosta de pescar. Eu gosto de fotografar ônibus”: conheça o hobby dos busólogos, que reúne milhares de fãs no Brasil


Antes de aprender a dizer “pai” ou “mãe”, o carioca Brenno Macedo já dizia outra palavra: “ônibus”. Hoje, aos 20 anos, ele trabalha como jovem aprendiz em uma empresa do setor, participa de encontros de fãs, viaja para fotografar modelos raros e passa boa parte do tempo livre conversando sobre… ônibus.

Brenno, assim como milhares de pessoas que compartilham o mesmo hobby, é um busólogo. O nome vem da junção de “ônibus” com o sufixo grego logos (“estudo”). Mas, ao contrário do que o termo pode sugerir, não existe uma faculdade de busologia nem uma associação oficial que determine quem faz ou não parte desse universo. 

Na prática, busólogo é qualquer pessoa apaixonada por ônibus. Alguns pesquisam a história do transporte coletivo e decoram linhas inteiras. Outros fotografam veículos, colecionam miniaturas, acompanham a evolução das pinturas das empresas ou das carrocerias – a parte onde ficam os bancos, as portas e as janelas. 

5 truques científicos para turbinar sua memória

Existe quem seja capaz de reconhecer um ônibus unicamente através do ronco do motor ou até mesmo viaje só para conhecer modelos diferentes. Esse conhecimento é construído de maneira autodidata, alimentado por fóruns, grupos de WhatsApp, redes sociais, visitas a garagens, conversas com motoristas e horas dedicadas à observação.

Apesar de parecer um interesse incomum, quase todos os busólogos contam histórias parecidas sobre a origem da paixão. Ela costuma surgir cedo. Também do Rio, Alex Bernardes lembra que passava horas observando os ônibus da rua quando era criança. O tio era motorista e, sempre que podia, levava o sobrinho para passear. “Quando não tinha aula, a gente ia dar uma volta de ônibus”, conta.

O fascínio nunca desapareceu. Através do contrário, finalizou definindo sua carreira. “Sempre foi um sonho dirigir um ônibus. Hoje sou motorista profissional e continuo gostando. Estou há 15 anos na profissão justamente porque gosto. É uma profissão muito cansativa, exige muita responsabilidade. É a paixão que alimenta o prazer de trabalhar com isso.”

A paixão de Brenno também veio de casa. O avô era motorista (embora ele não tenha chegado a conhecê-lo) e um tio seguiu a mesma profissão. “Eu cresci sentindo o cheiro de diesel e de motor, sempre conversando muito com meu tio. Tudo começou com meu avô, passou para ele e depois acabou passando para mim”, diz.

Mais tarde, Brenno ganhou dos pais um presente incomum para uma criança de cinco anos: uma visita à garagem de uma empresa de ônibus. “Foi uma experiência surreal. Eu pequenininho vendo aqueles ônibus enormes. Ali eu pensei: ‘Quero trabalhar nesse meio de alguma forma’. E aquele sentimento só foi crescendo.”

Brenno ainda criança, brincando com ônibus.Brenno Macedo/Arquivo pessoal

Se antes a busologia era um hobby relativamente solitário, a internet mudou tudo. Alex lembra que foi ainda na adolescência, durante a popularização do MSN e do Orkut, que percebeu que existiam outras pessoas apaixonadas por ônibus. 

“Foi quando a gente começou a descobrir outros loucos que gostavam de ônibus. Começamos a montar comunidades e fazer amigos”, diz.

Hoje, essa rede se espalhou por grupos de WhatsApp, Instagram, Facebook, canais no YouTube e sites especializados. É ali que circulam informações sobre novos veículos, mudanças de frota, linhas alteradas e modelos recém-saídos das fábricas.

Mas a comunidade não existe unicamente na internet. Os encontros presenciais seguem sendo parte importante do hobby.

Alex, por exemplo, gosta de fotografar veículos zero-quilômetro com os amigos: “A gente consegue informação de quando o ônibus sai da fábrica, calcula o horário que ele deve chegar ao Rio e pega o carro para esperar em um ponto da estrada que tenha uma iluminação boa para fazer a foto”.

Brenno e seus amigos também vivem na estrada. Eles coordenam viagens para eventos que reúnem busólogos em outras cidades, como Juiz de Fora (MG), Teresópolis (RJ) e São Paulo (SP), sempre com o objetivo de fotografar ônibus, conhecer novos modelos e encontrar pessoas que compartilham da mesma paixão.

Essas viagens costumam produzir uma frase que talvez só faça sentido para um busólogo: “a gente viaja mais para andar de ônibus do que para conhecer os lugares”, resume Alex.

Brenno (ao centro, de crachá) e seus amigos.Brenno Macedo/Arquivo pessoal

Rinha de frotas

Como qualquer comunidade de fãs, a busologia também tem suas preferências.

Existem defensores apaixonados das carrocerias da Caio, da Marcopolo, da Neobus ou da Mascarello. Outros preferem determinados fabricantes do chassi (a estrutura onde ficam o motor e os componentes mecânicos), como Mercedes-Benz, Volvo ou Volkswagen.

“Sempre acaba tendo aquela rivalidade, mas é uma briga saudável”, diz Brenno.

E, quando chega um ônibus novo, surgem debates sobre o design, a pintura, o conforto, o motor e até a posição dos faróis.

A recente padronização visual dos ônibus no município do Rio de Janeiro, por exemplo, virou um dos assuntos mais comentados entre os busólogos. 

A mudança, determinada Secretaria Municipal de Transportes, substitui gradualmente as pinturas tradicionais das empresas por uma identidade única, com cores que identificam cada área operacional do Rio. De acordo com a prefeitura, a medida busca melhorar a reconhecimento do sistema pelos passageiros.

Para Brenno, a mudança apagou parte da identidade das empresas. “A gente via um ônibus azul e laranja e sabia de qual empresa era. A padronização tira esse gostinho. Pra gente é um pouco triste.”

Alex compartilha da mesma opinião. “Eu prefiro as pinturas originais. O próprio passageiro identificava melhor o ônibus pela empresa. Acho que essa padronização é mais uma decisão política.”

De “malucos” a especialistas

Quem fotografa ônibus termina conhecendo motoristas, fiscais, mecânicos e funcionários das empresas. Não raro, essas amizades abrem portas.

Foi assim com Brenno. Depois de visitar tantas vezes a garagem de uma empresa, finalizou ficando conhecido pelos funcionários. “A pior coisa que você pode falar para um busólogo é: ‘Pode vir na garagem quando quiser’. Tenho certeza de que eles enjoaram de me ver”, brinca.

Mas essa relação nem sempre foi tão próxima. Alex conta que muitos motoristas ainda olham com estranhamento para quem passa horas fotografando ônibus. “O motorista olha e pensa: ‘Esse cara é vagabundo, está aí com a câmera em vez de trabalhar’. Não sabe que eu também sou motorista. É um hobby como qualquer outro. Tem gente que gosta de pescar. Eu gosto de fotografar ônibus.”

Brenno também já ouviu comentários parecidos. “Já falaram que a gente é um bando de malucos, que precisava arrumar uma esposa em vez de ficar tirando foto.”

Paulo Valente, diretor de Comunicação do Rio Ônibus, admite que o setor também já enxergou os busólogos desse jeito. “No começo, as empresas eram muito fechadas. Achavam que era um monte de malucos que só queriam tirar foto de ônibus.”

A visão mudou quando empresários perceberam o nível de conhecimento que muitos deles acumulavam. Alguns sabiam a placa de todos os veículos de uma empresa. Outros conheciam cada motorista, cada mudança de frota e até pequenos defeitos de determinados modelos.

Paulo lembra de um rapaz que decorava todas as placas da empresa onde trabalhava. “Pensei: ‘esse cara é uma enciclopédia’. Chamei para trabalhar como fiscal.”

Outro exemplo veio de Nova Friburgo (RJ). Um jovem enviava mensagens informando lâmpadas queimadas, defeitos e problemas avistados nos veículos durante as viagens. “Ele fazia isso de graça. Então, ofereci uma vaga para ele. Até hoje trabalha revisando ônibus.”

Segundo Paulo, vários profissionais do setor começaram justamente como fãs. “Hoje, quando vejo um busólogo, eu contrato ou recomendo que contratem. São pessoas muito dedicadas.”

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Guardiões da memória

Além de registrar ônibus novos, muitos busólogos se dedicam a preservar aqueles que desapareceram das ruas. Alguns mantêm arquivos com milhares de fotografias planejadas por empresa, modelo e ano. Outros restauram miniaturas ou chegam a comprar ônibus aposentados para recuperar as pinturas originais das décadas de 1970 e 1980.

Esse trabalho termina preservando uma memória que, muitas vezes, as próprias empresas não conseguem guardar. Como os veículos têm vida útil, normalmente são vendidos quando deixam de operar. “Pouquíssimas empresas mantêm exemplares antigos”, diz Paulo.

Não por acaso, quando pretende recuperar a história de uma frota, ele costuma recorrer justamente aos busólogos. “Quando eu quero saber alguma coisa sobre um ônibus antigo, nem perco tempo. Pergunto para eles.”

Esses arquivos guardam mudanças nas pinturas das empresas, nas linhas, nos modelos e nas tecnologias que circularam pelas cidades no decurso das décadas. Também preservam lembranças de quem cresceu usando ônibus para ir à escola, ao trabalho ou visitar a família.

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