Dois cientistas brasileiros estão entre as 100 pessoas mais famosas do mundo na lista de 2026 da revista americana Time: o entomologista Luciano Moreira e a engenheira agrônoma Mariangela Hungria.
Todos os anos, a publicação destaca personalidades que “estão moldando áreas como ciência, cultura, política e tecnologia”. Na edição atual, Moreira aparece na categoria “Inovadores”. Hungria, entre os “Pioneiros”.
Ambos atuam em campos diferentes da ciência, mas têm algo em comum: pesquisas que saíram do laboratório e passaram a produzir impacto na vida de milhões de pessoas. Vamos conhecê-las.
Mosquitos modificados
A dengue é transmitida principalmente através do mosquito Aedes aegypti. Mas nem todo mosquito espalha a doença. Para que isso aconteça, o inseto precisa ser fêmea (são elas que picam as pessoas para conseguir sangue) e precisa estar infectado com o vírus da dengue.
O mosquito se infecta ao picar uma pessoa que já está com dengue. Durante a picada, ele suga sangue para nutrir os ovos. Se esse sangue contém o vírus, o patógeno entra no organismo do mosquito.
Nos dias seguintes, o vírus se multiplica dentro do inseto e se espalha até as glândulas salivares. A começar daí, quando o mosquito pica outra pessoa para se alimentar, pode inocular o vírus junto com a saliva e começar uma nova infecção.
Por que não podemos extinguir todos os mosquitos?
Durante décadas, o enfrentamento ao Aedes aegypti seguiu basicamente um caminho: tentar diminuir o povo do mosquito. Campanhas de saúde pública se concentram em eliminar água parada – locais onde o inseto deposita seus ovos – e no uso de inseticidas.
Essas estratégias funcionam até certo ponto, claro. Mesmo assim, o Brasil continua registrando grandes surtos de dengue, além de epidemias ocasionais de outras doenças transmitidas através do mesmo mosquito, como zika e chikungunya.
O trabalho liderado por Luciano Moreira parte de outra lógica. Ao invés de exterminar o mosquito, a ideia é impedir que ele consiga transmitir o vírus.
Moreira é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e age no Programa Mundial de Mosquitos. O método desenvolvido por sua equipe usa uma bactéria chamada Wolbachia. Ela é comum na natureza e vive dentro das células de vários insetos, como a mosca-da-fruta. O Aedes aegypti, ainda assim, não carrega essa bactéria naturalmente.
Os pesquisadores então passaram a introduzir a Wolbachia nos ovos do mosquito em laboratório. Quando o inseto nasce com essa bactéria no corpo, os vírus da dengue, da zika e da chikungunya passam a ter dificuldade para se multiplicar dentro dele.
Sem conseguir se reproduzir bem no organismo do mosquito, o vírus praticamente perde a capacidade de ser transmitido às pessoas. Assim, ele continua vivendo normalmente e continua se reproduzindo. A diferença é que deixa de ser um vetor eficaz da doença.
E tem mais um detalhe. Quando mosquitos com Wolbachia se reproduzem, a bactéria é transmitida para os filhotes. Com o tempo, a característica tende a se espalhar através da população local de mosquitos.
Moreira participou do desenvolvimento dessa abordagem no decurso de mais de duas décadas. O projeto iniciou a ser implantado no Brasil em 2012 e foi sendo ampliado gradualmente.
Hoje, mosquitos com Wolbachia já foram liberados em 16 cidades. Estudos feitos nesses locais indicam reduções significativas nos casos de dengue. Em alguns municípios, a queda chegou a 89%.
Para ampliar a escala do projeto, foi criada em Curitiba a maior biofábrica do mundo dedicada à produção desses mosquitos. O complicado produz milhões de insetos que depois são liberados em cidades que participam do programa. O objetivo é proteger mais de 140 milhões de pessoas na próxima década.
O trabalho já havia recebido reconhecimento internacional. Em 2025, Moreira entrou na lista “Nature’s 10”, da prestigiada revista científica Nature, que reúne os dez pesquisadores que mais influenciaram a ciência naquele ano.
Bactérias agrícolas
Enquanto Moreira trabalha com mosquitos e doenças, Mariangela Hungria passou a carreira estudando microrganismos que vivem no solo. Engenheira agrônoma e microbiologista, ela pesquisa existe mais de três décadas formas de diminuir o uso de fertilizantes químicos na agricultura.
Esses fertilizantes foram importantes para aumentar a produção de alimentos no século 20, uma vez que fornecem nutrientes essenciais às plantas. Mas, quando aplicados em excesso, podem escorrer para rios e lagos e causar poluição.
Além de tudo, muitos deles são produzidos a começar de combustíveis fósseis, o que contribui para as emissões de gases de efeito estufa.
Hungria buscou uma alternativa inspirada na própria natureza. O nitrogênio é abundante no ar: aproxamadamente 78% da atmosfera é estabelecida por esse gás. O problema é que as plantas não conseguem absorvê-lo diretamente. Para que ele seja usado, precisa primeiro ser convertido em outras formas químicas.
Algumas bactérias do solo, ainda assim, conseguem fazer essa transformação e permitem que as plantas utilizem o elemento químico. Esse processo é chamado de fixação biológica de nitrogênio.
A equipe de Hungria reconheceu e escolheu microrganismos capazes de fazer esse processo em lavouras agrícolas. Eles são aplicados com o auxílio de um inoculante – um produto que é misturado às sementes no momento do plantio.
Depois que a planta cresce, essas bactérias passam a viver associadas às raízes e ajudam a fornecer nitrogênio para o desenvolvimento da lavoura. Na prática, isso permite diminuir ou até eliminar o uso de fertilizantes nitrogenados.
A tecnologia se espalhou rapidamente no Brasil. Hoje, aproxamadamente 85% das regiões cultivadas com soja no país utilizam esses microrganismos.
O impacto econômico é grande. Estimativas indicam que os agricultores brasileiros economizam aproxamadamente 25 bilhões de dólares por ano com a redução do uso de fertilizantes.
Existe também efeitos ambientais. O uso dessas bactérias amparou a impedir a emissão de aproxamadamente 230 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.
Durante da carreira, Hungria participou do desenvolvimento de mais de 30 tecnologias e publicou centenas de trabalhos científicos. Ela trabalha na Embrapa desde 1982 e age principalmente no centro de pesquisa dedicado à soja, em Londrina.
Em 2025, tornou-se a primeira brasileira a receber o World Food Prize, prêmio internacional frequentemente descrito como o “Nobel da agricultura”.

