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Quem são os cientistas brasileiros na lista da Time das 100 pessoas mais famosas de 2026

20 de abril de 2026
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Quem são os cientistas brasileiros na lista da Time das 100 pessoas mais influentes de 2026


Dois cientistas brasileiros estão entre as 100 pessoas mais famosas do mundo na lista de 2026 da revista americana Time: o entomologista Luciano Moreira e a engenheira agrônoma Mariangela Hungria.

Todos os anos, a publicação destaca personalidades que “estão moldando áreas como ciência, cultura, política e tecnologia”. Na edição atual, Moreira aparece na categoria “Inovadores”. Hungria, entre os “Pioneiros”. 

Ambos atuam em campos diferentes da ciência, mas têm algo em comum: pesquisas que saíram do laboratório e passaram a produzir impacto na vida de milhões de pessoas. Vamos conhecê-las.

Mosquitos modificados

A dengue é transmitida principalmente através do mosquito Aedes aegypti. Mas nem todo mosquito espalha a doença. Para que isso aconteça, o inseto precisa ser fêmea (são elas que picam as pessoas para conseguir sangue) e precisa estar infectado com o vírus da dengue.

O mosquito se infecta ao picar uma pessoa que já está com dengue. Durante a picada, ele suga sangue para nutrir os ovos. Se esse sangue contém o vírus, o patógeno entra no organismo do mosquito.

Nos dias seguintes, o vírus se multiplica dentro do inseto e se espalha até as glândulas salivares. A começar daí, quando o mosquito pica outra pessoa para se alimentar, pode inocular o vírus junto com a saliva e começar uma nova infecção.

Por que não podemos extinguir todos os mosquitos?

Durante décadas, o enfrentamento ao Aedes aegypti seguiu basicamente um caminho: tentar diminuir o povo do mosquito. Campanhas de saúde pública se concentram em eliminar água parada – locais onde o inseto deposita seus ovos – e no uso de inseticidas.

Essas estratégias funcionam até certo ponto, claro. Mesmo assim, o Brasil continua registrando grandes surtos de dengue, além de epidemias ocasionais de outras doenças transmitidas através do mesmo mosquito, como zika e chikungunya.

O trabalho liderado por Luciano Moreira parte de outra lógica. Ao invés de exterminar o mosquito, a ideia é impedir que ele consiga transmitir o vírus.

Moreira é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e age no Programa Mundial de Mosquitos. O método desenvolvido por sua equipe usa uma bactéria chamada Wolbachia. Ela é comum na natureza e vive dentro das células de vários insetos, como a mosca-da-fruta. O Aedes aegypti, ainda assim, não carrega essa bactéria naturalmente.

Os pesquisadores então passaram a introduzir a Wolbachia nos ovos do mosquito em laboratório. Quando o inseto nasce com essa bactéria no corpo, os vírus da dengue, da zika e da chikungunya passam a ter dificuldade para se multiplicar dentro dele.

Sem conseguir se reproduzir bem no organismo do mosquito, o vírus praticamente perde a capacidade de ser transmitido às pessoas. Assim, ele continua vivendo normalmente e continua se reproduzindo. A diferença é que deixa de ser um vetor eficaz da doença.

E tem mais um detalhe. Quando mosquitos com Wolbachia se reproduzem, a bactéria é transmitida para os filhotes. Com o tempo, a característica tende a se espalhar através da população local de mosquitos.

Moreira participou do desenvolvimento dessa abordagem no decurso de mais de duas décadas. O projeto iniciou a ser implantado no Brasil em 2012 e foi sendo ampliado gradualmente.

Hoje, mosquitos com Wolbachia já foram liberados em 16 cidades. Estudos feitos nesses locais indicam reduções significativas nos casos de dengue. Em alguns municípios, a queda chegou a 89%.

Para ampliar a escala do projeto, foi criada em Curitiba a maior biofábrica do mundo dedicada à produção desses mosquitos. O complicado produz milhões de insetos que depois são liberados em cidades que participam do programa. O objetivo é proteger mais de 140 milhões de pessoas na próxima década.

O trabalho já havia recebido reconhecimento internacional. Em 2025, Moreira entrou na lista “Nature’s 10”, da prestigiada revista científica Nature, que reúne os dez pesquisadores que mais influenciaram a ciência naquele ano. 

    Bactérias agrícolas

    Enquanto Moreira trabalha com mosquitos e doenças, Mariangela Hungria passou a carreira estudando microrganismos que vivem no solo. Engenheira agrônoma e microbiologista, ela pesquisa existe mais de três décadas formas de diminuir o uso de fertilizantes químicos na agricultura.

    Esses fertilizantes foram importantes para aumentar a produção de alimentos no século 20, uma vez que fornecem nutrientes essenciais às plantas. Mas, quando aplicados em excesso, podem escorrer para rios e lagos e causar poluição.

    Além de tudo, muitos deles são produzidos a começar de combustíveis fósseis, o que contribui para as emissões de gases de efeito estufa.

    Hungria buscou uma alternativa inspirada na própria natureza. O nitrogênio é abundante no ar: aproxamadamente 78% da atmosfera é estabelecida por esse gás. O problema é que as plantas não conseguem absorvê-lo diretamente. Para que ele seja usado, precisa primeiro ser convertido em outras formas químicas.

    Algumas bactérias do solo, ainda assim, conseguem fazer essa transformação e permitem que as plantas utilizem o elemento químico. Esse processo é chamado de fixação biológica de nitrogênio.

    A equipe de Hungria reconheceu e escolheu microrganismos capazes de fazer esse processo em lavouras agrícolas. Eles são aplicados com o auxílio de um inoculante – um produto que é misturado às sementes no momento do plantio.

    Depois que a planta cresce, essas bactérias passam a viver associadas às raízes e ajudam a fornecer nitrogênio para o desenvolvimento da lavoura. Na prática, isso permite diminuir ou até eliminar o uso de fertilizantes nitrogenados.

    A tecnologia se espalhou rapidamente no Brasil. Hoje, aproxamadamente 85% das regiões cultivadas com soja no país utilizam esses microrganismos.

    O impacto econômico é grande. Estimativas indicam que os agricultores brasileiros economizam aproxamadamente 25 bilhões de dólares por ano com a redução do uso de fertilizantes.

    Existe também efeitos ambientais. O uso dessas bactérias amparou a impedir a emissão de aproxamadamente 230 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.

    Durante da carreira, Hungria participou do desenvolvimento de mais de 30 tecnologias e publicou centenas de trabalhos científicos. Ela trabalha na Embrapa desde 1982 e age principalmente no centro de pesquisa dedicado à soja, em Londrina.

    Em 2025, tornou-se a primeira brasileira a receber o World Food Prize, prêmio internacional frequentemente descrito como o “Nobel da agricultura”.

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