Na última semana, o cinema brasileiro ganhou um novo thriller político inspirado em um dos momentos mais turbulentos da história recente do País.
Dirigido por André Sturm, A Conspiração Condor usa a linguagem do suspense para revisitar a sequência de mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e do jornalista e político Carlos Lacerda.
A história se passa entre 1976 e 1977, durante a ditadura militar, e acompanha Silvana (Mel Lisboa), uma jornalista que trabalha em uma redação em São Paulo. No começo da trama, ela escreve sobre fofocas e curiosidades da cidade, mas sua rotina muda quando é enviada para cobrir o velório de JK em Brasília.
Durante a apuração, inconsistências na versão oficial sobre o acidente iniciam a chamar sua atenção. Pouco tempo depois, morrem Jango e Lacerda – e a repórter passa a investigar se essa sequência de acontecimentos foi só uma mera coincidência.
“A Silvana tem uma curva ascendente de uma certa ingenuidade quando começa. Depois ela vai entendendo o terreno pantanoso em que está se enfiando e mesmo assim continua”, falou Lisboa à Super.
Veja o trailer:
Baseado em fatos
Silvana é uma personagem fictícia, mas os acontecimentos que a movem são reais.
Apesar das divergências ideológicas, os três políticos participaram da Frente Ampla, criada no final dos anos 1960. A iniciativa buscava pressionar o regime militar através da redemocratização do País e retomada das eleições diretas. Os militares proibiram o movimento pouco depois de surgir.
Em paralelo, na época, ditaduras da América do Sul criaram uma aliança clandestina para perseguir opositores políticos. Governos de países como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai cooperavam no monitoramento, prisão e desaparecimento de militantes e exilados.
Os Estados Unidos deram apoio logístico e político à articulação. Essa rede clandestina ficou conhecida como “Operação Condor” – nome que inspirou o título do filme.
No mês de agosto de 1976, JK morreu em um acidente de carro na Via Dutra, estrada que junta Rio de Janeiro e São Paulo. O ex-presidente estava no banco traseiro do veículo quando o motorista perdeu o controle depois de um choque com um ônibus.
Quatro meses depois, no mês de dezembro daquele ano, Jango morreu na Argentina, onde vivia no exílio desde o golpe militar em 1964. A causa oficial foi um infarto. Menos de um ano depois, no mês de maio de 1977, Lacerda morreu no Rio de Janeiro, também de forma oficial por problemas cardíacos.
A proximidade entre as três mortes levantou suspeitas. No decurso das décadas, diferentes investigações e estudos tentaram compreender se poderia haver alguma ligação entre os episódios, além de questionar as versões oficiais de cada caso.
No acidente que matou JK, por exemplo, surgiram hipóteses de sabotagem no carro ou de que o veículo teria sido fechado por outro automóvel antes de perder o controle. Já os óbitos de Jango e Lacerda levantaram suspeitas de envenenamento.
Nenhuma conclusão definitiva foi definida – e o filme tampouco pretende resolver esse mistério. Para o roteirista Victor Bonini, o que a trama busca é trazer a reflexão sobre o que passou.
“Também faz a gente pensar no que é dito para nós – se estamos sendo feitos de bobo por alguma grande mentira escondida por instituições que tentam bloquear certas informações”, falou Bonini. “Não viemos necessariamente com as respostas finais que todo mundo esperava, até porque são crimes antigos”.
Olhando para o passado
A Conspiração Condor se soma a produções recentes que revisitam a ditadura militar, como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Para Sturm, embora tratem do mesmo momento histórico, os três filmes continuam caminhos bem diferentes.
A escolha através do suspense, inspirada em clássicos norte-americanos dos anos 1970 como Todos os Homens do Presidente (1976) e A Trama (1974), busca criar o clima de tensão típico de histórias de investigação e conspiração.
A influência aparece tanto na estrutura narrativa quanto na estética. A câmera acompanha os personagens de perto, os planos são mais longos e a fotografia aposta em cores menos saturadas, produzindo um clima ininterrupto de suspense.
Seja em forma de drama ou suspense, Sturm e Bonini concordam que nunca é demais revisitar o passado. Afinal, muitos dos temas levantados seguem presentes no debate público – como manipulação de informações, influência internacional na política latino-americana e a dificuldade de distinguir versões conflitantes dos fatos.
No final, A Conspiração Condor não tenta resolver um mistério. Em vez disso, aposta no suspense para reabrir uma pergunta que se mantém em aberto existe décadas.
